O fim do inverno instala-se silenciosamente no campo.
Não como um fim, mas como uma pausa, uma mudança na luz, um silêncio mais profundo, um ritmo mais lento. A terra respira. As árvores permanecem imóveis. As pedras guardam o calor do dia. O fumo sobe das chaminés ao entardecer.
Há uma beleza particular no inverno aqui, uma beleza que só se revela a quem fica tempo suficiente. Manhãs envoltas em neblina. O som dos passos sobre a terra fria. Mãos a aquecer em torno de uma chávena, de um prato, de um fogo. A comida torna-se alimento no sentido mais pleno: simples, generosa, partilhada sem cerimónia. As refeições prolongam-se. O tempo abranda.
Dentro de casa, o fogo encontra o seu próprio ritmo. Lá fora, o ar desperta os sentidos. A sauna oferece calor e libertação; o frio devolve clareza. O corpo suaviza, a mente aquieta. Não há nada para fazer, nem para onde ir , apenas a coreografia subtil da luz, do movimento e do repouso.
Os dias de inverno no campo fazem-se de pequenos gestos. Caminhar sem destino. Observar o tempo a mudar. Escutar os pássaros, a lenha a estalar, o próprio silêncio. É nesta estação que a paisagem se sente mais próxima, mais honesta. Despida, mas plena.
Estar perto da terra no inverno tem uma forma própria de nos reequilibrar. O corpo recorda o seu ritmo. A mente liberta o excesso. O que fica é simples: calor, abrigo, presença.
Os contos de inverno não se planeiam.
Desenrolam-se devagar, em momentos em que permanecem uma refeição partilhada, uma noite tranquila, a luz da manhã a entrar pelas paredes caiadas.
E quando a primavera regressa, fá-lo com suavidade, como se nada tivesse sido apressado.
